FESTA DA JUREMA

Brandão e Nascimento (1998), abordam as relações que foram criadas pela cosmologia indígena entre a árvore Jurema e seus efeitos alucinógenos. Os efeitos alucinógenos de variadas espécies vegetais sempre foram utilizados em diversas etnias indígenas como meio de se relacionar com um mundo extra-físico e sagrado. Segundo estes autores “A JUREMA é uma árvore que floresce no agreste e na caatinga nordestina; da casca de seu tronco e de suas raízes se faz uma bebida mágico-sagrada que alimenta e dá força aos encantados do ‘outro-mundo’. É também essa bebida que permite aos homens entrar em contato com o mundo espiritual e os seres que lá residem. Tal árvore se constitui enquanto símbolo mágico-sagrado e é núcleo de várias práticas mágico-religiosas de origem ameríndia. De fato, entre os diversos dos povos indígenas que habitaram ou habitam o nordeste, se fazia e em alguns deles ainda se faz uso ritual desta bebida”. Os autores também mencionam a partir de Cascudo e Bastide sobre possíveis associações com o simbolismo mágico-religioso cristão. “Contudo, este culto este se difundiu dos Sertões e Agrestes nordestino em direção às grandes cidades do litoral, onde elementos das outras matrizes étnicas entraram em cena. Desse modo, o símbolo da árvore que liga o mundo terreno ao além e, embora amargo , dá sapiência aos que dela se alimentam, ganha novos significados, surgindo um mito com traços cristãos. Neste sentido, a Jurema surge como a árvore que escondeu a sagrada família, dos soldados de Herodes, durante a fuga para o Egito, ganhando desde então suas propriedades mágico-religiosas (Cf. Cascudo, 1931 ; Bastide, 1945)”. Nesta esteira também confirmam a presença de elementos do catolocismo popular: “Ainda nessa perspectiva, juntaram-se na constituição desta forma de religiosidade popular, outros elementos de origem européia como a magia e o culto aos santos do catolicismo popular. Da matriz africana, incorporou o sacrifício de animais, como realizado entre os Xangôs nordestinos, além de algumas divindades do panteão Yorubá. As constantes ondas migratórias entre o interior e o litoral devem ter influenciado nestes intercâmbios de elementos simbólicos no culto. E com esta configuração ele se espalha em algumas capitais nordestinas, como Recife, Paraíba, Maceió e Natal”. Em nossos registros de campo através de entrevistas e filmagem em dois municípios, Arapiraca e Palmeira dos Índios, ficou nítido que os rituais e babalorixás são mais ligados à cosmologia indígena, aliás um dos babalorixás se identifica como indígena, não incorporou o sacrifício de animais especificamente nos rituais de jurema. Embora estes terreiros registrados sejam de candomblé e umbanda. Segundo Alexandre L’Omi L’Odó (2015), juremeiro e participante do Quilombo cultural Malunguinho de Olinda/PE , a Jurema Sagrada é uma das tradições religiosas que existe no Brasil, genuinamente, de matriz indígena e que se compõem hoje dentro do universo de matriz africana, numa perspectiva de uma tradição afro indígena ou indo africana. A matriz é indígena! Quando os colonizadores e os africanos chegaram nessa terra a parte da Jurema Sagrada já existia aqui. A Jurema é uma religião típica do nordeste . Existe diversos terreiros no Brasil de Jurema, mas a Jurema existe de fato no Nordeste. É uma religião que trata de árvores sagradas que só existem no Nordeste. A Jurema Sagrada essa árvore que cresce no sertão do nordeste inteiro, mas também existe em diversas partes da América Latina, ela em si só é uma diversidade, pois não é uma espécie botânica única. Existem alguns tipos de Jurema que são cultuadas como divindade no nordeste: a Jurema Preta, mimosa hostilis, e a Jurema Coroa de Cristo. A palavra Jurema quer dizer “espinho fedorento”, em tupi. E serve também como cicatrizante de feridas e para ingestão interna (chá) para a cura de alguma infecção. É uma planta bonita, forte que sobrevive a seca do sertão. A cosmologia da Jurema são as cidades que fazem parte do mundo encantado – lugares sagrados onde estão as árvores sagradas. No altar da Jurema encontramos elementos como os copos e taças que são os príncipes e princesas da Jurema que representam essas cidades. O total é de sete cidades que são reinos sagrados que pertencem a principal cidade, Jurema. Cada reino tem seus rituais, cânticos e toadas específicos. Alexandre L’Omi L’Odó ainda fala que existe uma teologia da Jurema, ou melhor, uma Juremologia ou aspectos religiosos que compõem a Jurema, por assim dizer. E afirma que a Jurema é particularmente do nordeste e indígena, mesmo que haja uma umbandização dos rituais: “aspecto teológico único do imaginário dos índios do nordeste”. Alexandre constrói o seguinte esquema de apresentação do assunto: - A Jurema como espaço mítico sagrado, sem a árvore jurema não existe a religião; - A ciência da Jurema, diálogo com o material através das entidades e divindades; - O juremeiro e a juremeira, veículo de ligação entre o espiritual e o material, os dententores da ciência da Jurema, sacerdote curador; - As ervas e seus poderes místicos; - A fumaça dos cachimbos, a fumaça sagrada; - A filosofia/cânticos que são a base sagrada da moral; - A comunidade, aliança entre os terreiros de Jurema; - Corpo do rito: Ritmo, dança e cânticos, invocações, rezas e orações; - A vida como celebração de si e do universo; Ainda segundo Alexandre existem alguns elementos característicos da Jurema, sendo o cachimbo e o macacá que identificam popularmente a religião. A Jurema é uma religião que fuma e bebe, porém como rituais sagrados. Os elementos característicos da religião são: - Espécies de Brajás, contas (colares) feita com sementes de jurema. - Cachimbo; - As bebidas; - Culinária própria; - Macacá, instrumento de som. Em relação ao registro de campo, a Festa da Jurema do Centro Ilê de Oxóssi em Palmeira dos Índios utilizou-se símbolos rituais condizentes com a tradição juremeira indígena, macacá, cachimbo, indumentária com motivos de plantas, culinária e a representação dos encantados nas taças com água no altar. O babalorixá Messias Vieira realiza a Festa da Jurema sempre uma vez ao ano, especialmente no mês de novembro. A festa inicia por volta das 20h00min e termina aproximadamente as 02h00min da madrugada. Na festa acontece todo o culto a Jurema, invocando seus mestres e mestras para descerem e fazerem parte da roda junto com seus convidados. Como explica Messias: "Os que vêm hoje ainda, a gente vai cantar, pra os mestre, né. Sem os boiadeiro. Os mestre é os Eguns, a gente cantamos como mestre e vem as mestras, as mulhê se veste, as mestra vem ainda. Quando seu Zé vem ele demora pouco, manda vestir as mulê. As mulhê veste as roupa adequada delas e vem pa gira, pa nós canta pra elas dançarem mais e se sentirem a vontade pra festejar a festa”. Durante a festa acontece o momento das oferendas que são levados um cesto com muitas frutas para o meio do salão para serem servidos as pessoas. No encerramento da festa é servido muita comida como o feijão tropeiro, a carne de bode, o cafezinho, etc. A festa tem uma participação não só dos juremeiros, mas da comunidade local e de pessoas de outros terreiros de outras cidades, como Maceió.